ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 576 - 9/2/2010
  Verbo Solto
Início > Blogs > Verbo Solto + A | - A
   

Camisa-de-força na internet

Postado por Luiz Weis em 6/7/2008 às 12:56:47
 
 

É um assombro a resolução da Justiça Eleitoral que estende à internet as limitações impostas às emissoras de rádio e TV na cobertura da campanha deste ano.

 

Como diz a Folha – o único dos grandes jornais a falar do assunto hoje, em matéria de página inteira – o ato do TSE “fechou as portas do mundo virtual para a divulgação de informação jornalística e de manifestações individuais sobre candidatos”. [Íntegra da matéria mais adiante.]

 

Nenhum site, blog ou comunidade virtual pode apoiar ou criticar candidatos. Tampouco pode lhes dar tratamento desigual.

 

É um atentado à liberdade de expressão no mais livre dos espaços já criados pelo engenho humano – e que não depende de autorização, permissão ou concessão do poder público para existir, diferentemente de uma estação de rádio ou TV.

 

Dá, por exemplo, no seguinte:

 

Um jornal declara em editorial o seu apoio a um candidato. O editorial não pode sair na sua edição online.

 

Será que ninguém pedirá ao Supremo que remova a mordaça?

 

Um mistério de US$ 20 milhões

 

Furo mundial ou furo na água, a informação do repórter Frédéric Blassel, da sucursal de Zurique da Radio Suisse-Romande, sediada em Berna, de que a Colômbia pagou US$ 20 milhões a um comandante das Farc pela libertação de Ingrid Betancourt e outros 14 reféns, está indo pelo ralo na mídia.

 

O repórter atribuiu a história a uma fonte a quem conhece há 20 anos. É improvável que seja um colombiano. Leva jeito de ser um agente (ou ex) da espionagem francesa.

 

A versão, transmitida na sexta-feira e imediatamente desmentida pelo governo de Bogotá, é importante demais para ser mencionada agora apenas como uma das várias dúvidas que persistem sobre a operação.

 

Bem que um jornal brasileiro – como o Estado, que tem em Genebra um correspondente de primeira linha, Jamil Chade – poderia dar a ficha desse repórter. No site www.swissinvestigation.net/en/directory/ ele figura numa relação de 37 jornalistas investigativos de seu país.

 

Por que não apurar quantas e quais de suas revelações anteriores foram comprovadas – ou “desprovadas”? E quantas e quais vieram desse mesmo informante? Por que não lhe perguntar ainda se ele banca uma informação-bomba como essa com base em uma única fonte?

 

Mais escola, menos desnutrição

 

O ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva, critica hoje o jornal por não ter dado destaque à descoberta de que, entre 1996 e 2006, a desnutrição infantil crônica diminuiu 46% no país – e 74% no Nordeste.!

 

“A notícia não apareceu em primeira página; saiu apenas no pé da capa de Cotidiano de sexta”, aponta – até aí coberto de razão.

 

Até aí, porque no sábado, quando a coluna decerto já estava fechada, a Folha se redimiu, publicando uma imperdível entrevista do repórter João Batista Natali com o especialista em saúde pública Carlos Augusto Monteiro, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde, da USP. Ocupa praticamente uma página. Pode ser lida em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0507200831.htm

 

Monteiro foi um dos responsáveis pela pesquisa, feita para o Ministério da Saúde, que evidenciou a extraordinária mudança nas condições de vida das crianças brasileiras.

 

Segundo ele, o fator mais importante para a queda da desnutrição infantil foi “a melhoria excepcional no nível de escolaridade das mães”.

 

Em 1996, os filhos de mães com menos de 4 anos de escola eram 28% do total. Hoje são 11%. Já os filhos de mães com pelo menos 8 anos de escola passaram de 32% para 62%.

É um Brasil que raramente aparece na mídia.

 

“TSE restringe uso de internet na campanha”


”A restrição imposta pelo Tribunal Superior Eleitoral ao uso da internet como instrumento de propaganda fechou as portas do mundo virtual para a divulgação de informação jornalística e de manifestações individuais sobre candidatos.

A limitação está prevista na Resolução nº 22.718, uma espécie de guia para as eleições municipais deste ano. O ponto mais polêmico é o fato de o TSE ter equiparado legalmente a internet ao rádio e à televisão, que são concessões públicas.

A legislação eleitoral proíbe a mídia eletrônica de difundir opinião favorável ou contrária a candidato e ainda de dar tratamento diferenciado aos postulantes. Já os jornais e revistas, que são empresas privadas, não sofrem restrições.

Na prática, a equiparação significa que as inúmeras ferramentas da internet -como blog, e-mail, web TV, web rádio e páginas de notícias, de bate-papo, de vídeos ou comunidades virtuais- não poderão ser usadas para divulgar imagens ou opiniões que configurem apoio ou crítica a candidatos.

A vedação cria situações inusitadas. Um texto desfavorável a uma candidatura, por exemplo, pode ser publicado num jornal impresso, mas não pode ser reproduzido em um blog.

Até mesmo o internauta poderá ser multado se criar sites, blogs ou comunidades pró ou contra candidatos. O tribunal entende que quem não pode praticar um ato por meio próprio também não pode praticar por meio de terceiros.

Uma consulta e um mandado de segurança foram encaminhados ao TSE para tentar esclarecer as dúvidas sobre a internet na disputa de 2008.

A consulta, assinada pelo deputado federal José Fernando de Oliveira (PV-MG), questionava o uso do e-mail, do blog, do link patrocinado (anúncio em site de busca) e de comunidades virtuais como instrumentos de propaganda. Os ministros do TSE não chegaram a um consenso.

Enquanto o presidente da corte, Carlos Ayres Britto, defendeu a internet como um espaço de liberdade de comunicação e, por isso, não sujeita a restrições legais, o colega Ari Pargendler apresentou cerca de 45 propostas de controle da rede mundial de computação.

O TSE optou pelo voto do ministro Joaquim Barbosa, que propôs postergar a discussão para casos concretos que ainda serão levados ao tribunal.

O mandado de segurança foi iniciado pelo Grupo Estado, que criticou a equiparação da internet às empresas de radiodifusão. Sem analisar o tema, o TSE rejeitou o recurso.

Advogados de empresas jornalísticas com portais na internet criticaram a resolução.

"É uma situação absurda. Um site vinculado a um jornal ou a uma revista pertence a um grupo privado, não é uma concessão pública, não pode ser censurado", disse o advogado do Grupo Estado Afranio Affonso Ferreira Neto.
Para ele, um internauta não tem uma postura passiva diante da notícia, ele precisa "navegar" até encontrar o que busca.

O advogado Luís Francisco Carvalho Filho, da Folha, também criticou os limites impostos pela resolução. "Como cidadão, tenho o direito de expressar a minha opinião em um blog, de dizer em quem voto e de criticar candidatos." Para Carvalho Filho, a maioria das questões sobre o uso da internet na eleição serão certamente analisadas pela Justiça.

Luiz de Camargo Aranha Neto, advogado das Organizações Globo, defendeu o fim da regulamentação da internet, a exemplo do que já ocorre em outros países. "Mesmo porque uma fiscalização é impossível, você pode criar um site num provedor do exterior. Como a Justiça vai impedir?"

Para o especialista em direito eletrônico Renato Opice Blum, a tendência é, aos poucos, a legislação brasileira ser menos proibitiva com a internet. "Mais cedo ou mais tarde, nós também teremos uma regulamentação mais equilibrada."

No mês passado, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio divulgou uma portaria permitindo o uso de blog, de site e de comunidade do Orkut na eleição. Vetou o uso do e-mail.”

Comentários (8)
Comentar
Compartilhe
[imprimir]  [enviar por e-mail ]  [link permanente]
   
   
Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem intolerância ou crime.
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Odracir  Silva, pesq. cientifico/n.c. (Sao Paulo/SP)
Enviado em 8/7/2008 às 17:02:26

Nao sei o q ee pior p/ as farcs. Se nao pagaram, foi uma derrota clara. Se pagaram pela liberdade p/ a Ingrid Betancourt e outros 14 reféns, venderam barato... alem de demonstrarem q sao marginais comuns, pois estao soo atras de dinheiro. Alem do fato de q entregaram ao exercito colombiano o comandante Cesar (fazia parte dos 20 milhoes? certamente estas farcs sao "muy amigas...").
Gabriel  Meccini, Ourives (Belo Horizonte/MG)
Enviado em 8/7/2008 às 09:21:21

Essa liberdade de expressão esconde atrás de si o famigerado interesse de bombardear, como a publicidade o faz, as mentes terceiro-mundistas de nossos eleitores. A técnica da repetição é usada, pela propaganda, como melhor recurso de venda de produtos, serviços e ideais. Com essa liberdade de expressão, a Veja e FSP teriam total respaldo para publicar matérias que apóiam somente a oposição, metralhando a situação. Os poderosos agradedem essa nuvem ideológica chamada liberdade de expressão mascarada de justiça. Quando algum interesse dos dominantes é impedido, a mídia, e o OI, bradam alto, como sempre. Conversa para boi dormir.
Kaliana  Kalache, Cientista Política (Campo Largo/PR)
Enviado em 8/7/2008 às 01:07:03

A realidade é que o TSE está censurando a mídia digital. É um absurdo, um atraso. Já estava sendo primitiva a proibição aos candidatos de utilizarem a Internet como meio de propaganda, agora a justiça impede o direito de expressão, de opinião de blogueiros, e tantos outros que usam a internet para se expressarem. Deixo o endereço do meu blog, com o post no qual inicio um protesto pela censura que nos está sendo imposta. http://kalikalache.com/2008/07/08/tse-volta-a-barrar-a-internet-que-atraso/
Carlos N  Mendes, industriário (Santos/SP)
Enviado em 7/7/2008 às 22:12:29

GRANDE Ivan Moraes, dando-nos um novo jeito de pensar sobre o caso Betancourt... do pau de galinheiro onde sentou Álvaro Uribe (narcotráfico), saem sempre coisas piores que titica. Bem Saudável a refém que estava à beira da morte. VERGONHA nos reacionários de plantão que, incapazes de encontrar armas mais eficazes para ferir a esquerda, preferem segurar a barra da saia de um presidente suspeitíssimo, na antiga crença de que o inimigo de meu inimigo é meu amigo. Integridade e caráter, a gente deixa pra campanha eleitoral... Já quanto à internet, acredito que muito juiz vai aprender na marra o que significam expressões como ´World Wide Web´ e ´furado como uma peneira´. Como se censura uma rede neural ? Ou algo intangível como uma ameba ? Se o TSE procurasse conhecimento técnico sobre a Web antes de tomar decisões restritivas sobre ela, não perderia seu tempo tentando parar o vento.
José de Souza  Castro, Jornalista (Belo Horizonte/MG)
Enviado em 7/7/2008 às 11:47:15

De Ricardo Noblat, hoje, respondendo a uma leitora de seu blog sobre um comentário que ele fez acerca das eleições em Belo Horizonte. Segundo ele, nada mudou: "Ao contrário do que tem saído por aí, a Justiça Eleitoral não equiparou a internet ao rádio e a tv, obrigados a cumprir certas regras para não beneficiar candidatos em detrimento de outros. A Justiça decidiu que cada caso na internet será um caso. Se provocada, ela se pronunciará. Por aqui tudo continuará como sempre foi. Noblat". Lá no Tamos com Raiva também. Espero que em todos os outros blogs (e não estou pregando, pelo visto, nenhuma desobediência civil, como gostaríamos que ocorresse nos "bons" tempos da ditadura).
Ivan  Moraes, nenhuma (Newark, NJ/MG)
Enviado em 7/7/2008 às 10:56:47

"Será que ninguém pedirá ao Supremo que remova a mordaça?": nao, Todo mundo detesta juiz. Ainda mais latino...
José de Souza  Castro, Jornalista (Belo Horizonte/MG)
Enviado em 7/7/2008 às 09:00:49

O blog Tamos com Raiva (espero que também a Novae) não vai retirar por causa dessa resolução inconstitucional da Justiça Eleitoral o artigo intitulado Um "socialista" na prefeitura de BH, postado na semana passada. E já está preparando novos perfis de outros candidatos. O próximo será da comunista Jô Morais que aparece na frente em pesquisa eleitoral. Se o Supremo mantiver uma aberração dessas, ele pode fechar as portas...
Ivan  Moraes, nenhuma (Newark, NJ --MG/MG)
Enviado em 6/7/2008 às 14:47:35

"informação do repórter Frédéric Blassel, da sucursal de Zurique da Radio Suisse-Romande, sediada em Berna, de que a Colômbia pagou US$ 20 milhões a um comandante das Farc pela libertação de Ingrid Betancourt e outros 14 reféns, está indo pelo ralo na mídia": atravez de qual banco? No mais, nao chego perto desse assunto nem pintado de ouro... a historia toda desse "rapto" eh esquizitissima, e tem mais perguntas do que respostas, EXCETO se o governo da Colombia estivesse envolvido, ai sim um monte de perguntas teria resposta logica.
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Luiz Weis
Jornalista, pós-graduado em Ciências Sociais 
pela USP, onde lecionou Sociologia da Comunicação. Escreve no Observatório da Imprensa e no jornal "O Estado de S.Paulo". Entre outras atividades, foi redator-chefe das revistas "Superinteressante" e "IstoÉ", editor-assistente da "Veja", editor político e apresentador do programa "Perspectiva" da TV Cultura, editor nacional da "Visão" e editor de assuntos especiais da "Realidade". É autor, com Maria Hermínia Tavares de Almeida, de "Carro-zero e pau-de-arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar, in "História da Vida Privada no Brasil", Lilia Moritz Schwarcz (org.), 1998, e do perfil político de Vladimir Herzog (sem título), in "Vlado — Retrato da morte de um homem e de uma época, Paulo Markun (org.), 1985. Recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo Científico, em 1990.


Arquivo

Navegue pelos meses usando
também as setinhas azuis.
Você encontra uma descrição do conteúdo dos tópicos, dia a dia.
   2010 
DSTQQSS
123456
78
9
10111213
14151617181920
21222324252627
28

Últimos posts
Aos leitores
Uma pauta para mudar o Rio
O Estadão e os aloprados
Bateu - e culpou a imprensa
Um "problemão" em Honduras